No início, é apenas

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No início, é apenas
um fino fio que escorre,
feito lágrima de um olho dágua.

Depois, logo à frente,
se junta com outro igual,
e outro e mais outro
e correm juntos adiante
crescendo feito menino
que fica moço de repente.

E, ao longo do caminho,
se alargam tanto
que para atravessá-lo
é preciso grandes pontes.

E quando alcança o litoral
se abre num D de delta,
inunda a planície costeira
e suas águas são tantas e tão fortes
que empurram o mar de volta.

Amiúde, a esperança é diferente:
começa foz e termina nascente.

(Wanderley Navarro)

Pedi para a estrela do mar

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Pedi para a estrela do mar:
deixe que eu te cante, apenas te cante,
porque nada mais posso senão te cantar.
Os portos naufragaram
e eu não sei andar sobre as águas.
Se abandono o barco, a dor me afoga.
Se fico, o vento me apaga.
Por isso, deixa que eu apenas te cante,
não porque és longe e inalcançável,
mas porque eu sou muito distante.

(Wanderley Navarro)

Desde cedo, ainda criança

Desde cedo, ainda criança,
fui informado que o nosso coração
fica dentro do peito,
assim do lado.
Pois bem, hoje, bem agora,
descubro que me ensinaram errado.
O meu coração pulsa mesmo
é do lado de fora.

(Wanderley Navarro)

Há momentos,

Há momentos,
raros momentos,
em que experimento
um segundo de paz.
São instantes,
raros instantes,
e,no entanto,suficientes
para me fazer acreditar
na paz inteira.

(Wanderley Navarro)

Amo a vastidão dos campos

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Amo a vastidão dos campos
nus ou plantados.
Amo a vastidão dos mares
e das planícies intermináveis.
Amo a vastidão do universo
que me prova o infinito.
Amo esse deserto sem horizontes
que se estende dentro de mim.

(Wanderley Navarro)

A noite é emocionante

A noite é emocionante
porque tem milhares de estrelas.
O dia também é emocionante
porque sua única estrela
ilumina meio mundo inteiro.
Muitas ou uma só
são igualmente emocionantes.
Não importa o tanto,
o que vale mesmo é o encanto.

(Wanderley Navarro)

Há geleiras adormecidas

Há geleiras adormecidas
e oceanos agitados.
Há os que gritam e brigam
pelo que julgam certo
e os que se calam.
Há oásis que moram nos desertos
e desertos sobre os mares.
A vida é um tecido
feito com fios tão singulares.
Somos todos diferentemente iguais.

(Wanderley Navarro)

Um é o rio que passa

 

Um é o rio que passa,
outro é o que fica nos nossos olhos.
Um é o mundo de nossas palavras,
bem outro é do nosso silêncio.
Uma é a foto do agora, colorida,
outra, fora dela, é a vida.
De uns e outros somos feitos.
No entanto, restamos um só.

(Wanderley Navarro)

Quando você partiu

Quando você partiu
plantei aquela flor
esperando você voltar.

Reguei-a sempre,
com água e carinho,
mesmo quando as outras
não desse tempo de regar.
Dei-lhe colo no inverno,
dei-lhe sombra no calor.
Cuidei dela o tempo todo
como se ela fosse meu amor.

Quando você partiu
plantei aquela flor
esperando você voltar,
mas você nunca mais voltou
e aquela flor ficou no seu lugar.

(Wanderley Navarro)

O espaço é feito de pontos…

O espaço é feito de pontos
e onde não houver espaço
deve-se colocar um ponto
para que o espaço apareça.

A reticência é feita de pontos,
infinitos pontos finais,
pontos que não acabam mais…

(Wanderley Navarro)

No meio da noite, a luz faltou.

No meio da noite, a luz faltou.
No escuro, desço a escadaria…
Os olhos inúteis e vedados,
a mão solta, sem seguro,
passo a passo, para baixo
buscando no vazio,
o apoio do piso invisível.
O coração vacila e duvida,
apenas meus pés acreditam no degrau.

(Wanderley Navarro)

 

As estrelas estão lá.

 

As estrelas estão lá.
Distantes e caladas,
mas o olhar cheio de brilho.
São pingos que não precisam de is.
Não precisam de voz…
a luz dispensa palavras.
As pessoas falam e repetem
para deixar claro o que dizem.
As estrelas, simplesmente, brilham.

(Wanderley Navarro)

O amor não precisa de dois

O amor não precisa de dois,
às vezes, é filho de um só.
Mesmo não correspondido
pode viver sem par,sem colo
e continuar inteiro.
O amor perfeito nem sempre é dueto,
comumente, é um solo.

O pai ama seu filho demente
mesmo que este nem saiba quem ele é.
A mãe ama seu bebê
muito antes de ele nascer.
Inclusive os que já não mais existem
continuam sendo amados por nós.

O amor mais verdadeiro
é sempre o que ama primeiro
e, por isso, ama sozinho.
O criador só nos criou
porque antes nos ter criado,
nos amou.
O amor amor
poder ter um lado só
e, solitário, ser ainda maior.

O amor existe,
mesmo o amor de um só,
mas se for de dois é bem melhor.

(Wanderley Navarro)

O dia se foi

O dia se foi
e deixou seu rastro escuro.
A sombra da Terra
se projeta universo afora
e a noite se torna um caminho
que começa aqui nos meus pés
e sobe e se perde no infinito.
Permaneço aqui ao relento
e, estendido no gramado,
só sei olhar para cima.
Meus olhos, mais leves que o ar,
sobem feito balões de gás
buscando tocar o alto mais alto.
A noite é uma longa estrada
e nela meus olhos caminham.
Mas o olhar tem pernas curtas
e nunca chega lá onde é chegar.

(Wanderley Navarro)

Engane-me, por favor!

 

Engane-me, por favor!
Fale-me exatamente
aquilo que tanto desejo ouvir.
A verdade é uma mentira
na qual a gente quer acreditar.
Faça-me crer que o faz-de-conta
é a mais pura realidade.
Bem sei que agora é noite,
mas me convença do contrário.

Engane-me, por favor.
Quando é você quem diz
a mentira vira verdade.
Preciso que me engane
e que me mantenha enganado.
Tem outro jeito de ser feliz?

(Wanderley Navarro)

 

Para viver é indispensável

Para viver é indispensável:
o ar que a gente nem vê,
a água porque sem ela
somos pouco mais que nada,
a luz do sol sem a qual
nada valem nossos olhos,
a família que nos faz maiores
do que realmente somos,
um lugar com telhado
para chamar de casa,
alguns dias, uns atrás outros na frente
que, somados, viram nossa história,
um nome para ser chamado,
voz para se dizer e gritar presente,
um que-fazer para mexer no mundo

e, sobretudo,
para que o viver seja mesmo vida,
é indispensável
uma paixão que dê sentido a tudo isso.

(Wanderley Navarro)

O Criador quando fez a luz

O Criador quando fez a luz
viu que adão e eva não tiravam os olhos do chão
porque havia um mundo inteiro para explorar.
Por isso, o Criador inventou a noite.
Não foi para dormir nem descansar.
A noite foi feita para apagar o mundo
e, assim, fazer com que eles e elas
levantassem a cabeça
e contemplassem as estrelas…

Wanderley Navarro

Aquiete seu coração

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Aquiete seu coração.
Pegue-o no colo,
cubra-o com seus braços,
embale-o junto aos seios,
faça-o ninar e adormecer.
Feito mãe que deita o filho no berço,
deixe descansar seu coração no peito.
Fique ali e, ao lado dele,
solte seu corpo cansado.
Sussurre-lhe melodias doces,
mas não desafine com mágoas
nem deixe seu pensamento
fazer barulho.
Feche os olhos, apague o mundo
e deixe o Tempo lá fora.
Ouça seu coração pulsar macio
e descanse que a paz vai chegar.

(Wanderley Navarro)

Abro mão

Abro mão da minha casa,
do meu nome e de tudo que é meu.
Abro mão das minhas razões
e de tudo que me faz sentido.
Abro mão dos meus poemas
e de tudo que me inspira.
Abro mão da minha vida
e de toda minha história.
Abro mão de mim mesmo.
E, assim, nada e ninguém,
reencontro quem sou.

(Wanderley Navarro)

A vela inflada

 

 

Vela infl

A vela inflada
desliza grávida
sobre as águas.
Não tem destino
nem quer chegar.
O que a move é a lufada
que empurra a popa.
A vela inflada
não sabe que existe cais.
Quem guia e aponta a frente
é o sopro que vem de trás.
A vela inflada vai mar adentro.
Sou eu o barco, você, o vento.

(Wanderley Navarro)

Nada fica para trás.

Nada fica para trás.
O que fomos, continuamos sendo.
A vida não fica no passado.
O trecho percorrido nos acompanha.
O trilho feito pelos nossos pés
o chão apaga a cada instante,
o que foi não existe mais
a não ser em nós.

Nada fica para trás.
O caminho por onde seguimos
nós o carregamos nas costas
à medida que avançamos.
Somos a soma de nossos passos.
Nosso ser é uma mochila grande
onde levamos tudo que fomos.

(Wanderley Navarro)

Não colho as flores

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Não colho as flores do caminho.
Não colho.
Deixo-as, ali, abertas me olhando
e, devagar, passo por elas
não porque eu as despreze
ou não sejam por mim amadas,
mas porque as flores do caminho
são como as estrelas do céu:
feitas só para serem olhadas!

(Wanderley Navarro)

Não colho as flores do caminho

Não colho as flores do caminho,
mas, a cada passo,
lhes dou meus olhos.
As flores são diferentes,
mas todas, igualmente, admiráveis.
Deixo-me inteiro em cada uma
e, assim, ao longo deste longo caminho,
são as flores que me colhem…

(Wanderley Navarro)

Não colho

Não colho as flores do caminho.
Permanecem vivas onde nasceram.
Ficam inteiras na minha passada.
Não colho as flores do caminho,
deixo-as para os olhos
dos que vêm depois.
Não colho as flores do caminho,
mas levo na mente
um ramalhete delas.

(Wanderley Navarro)

Impossível ignorar o sol

Impossível ignorar o sol.
Sua luz me veste,
me segue, vai por onde vou.
Como ignorar o sol
se ele está em toda parte
e é ele quem me mostra o mundo…
Mesmo quando a noite se faz
e sua luz não se vê mais
o escuro fala dele.
Escondido e apagado,
é ainda mais lembrado,
mais sentimos sua falta
e, assim, sua ausência 
o faz brilhar ainda mais.

(Wanderley Navarro)

A certeza é uma visita rara

A certeza é uma visita rara
que nunca se demora
e só fica alguns instantes
em nossa casa.
Feito relâmpago na tempestade
que só dura frações de segundo…
Mas deixa claro que a luz existe.

(Wanderley Navarro)

Penduro atrás da porta

Penduro atrás da porta
meus erros imperdoáveis,
as vontades desfeitas,
ausências inaceitáveis,
o tempo perdido
e tudo o mais que me pesa.

Então, assim leve,
despido de dívidas,
nu de desejos,
abro a janela e, em silêncio,
contemplo o pôr do sol.
Meus olhos, lá longe,
descansam em paz.

(Wanderley Navarro)

Nasci no Paraíso

Nasci no Paraíso.
E nele vivo meus dias.
Mas me pergunto sempre
como será o mundo lá fora.
Que gosto terá o fruto proibido?
Tudo aqui é perfeito,
mas como será o desconhecido?
O tempo todo me assanha o além-fronteira.
Tenho tudo, mas o tudo pode ser mais.
Estando aqui, ainda me falta chegar.
A felicidade, enfim, não é tudo.
Nasci no Paraíso,
mas nasci com fome.
O Paraíso é insuficiente
por mais paraíso que seja.

Wanderley Navarro

Sou muitos.

Sou muitos.
Quem me vê de fora
acha que sou único.
Mas sou muitos.
Guardei em mim todos aqueles
que por mim passaram.
Sou muitos. Mas não todos.
Não o mundo inteiro.
Por isso, sou apenas muitos.

Wanderley Navarro

Enterrei na beira da estrada

Enterrei na beira da estrada
meus sonhos desfeitos,
os abraços não dados,
as lembranças doídas,
os projetos irrealizados,
os segredos lacrados.
Quero seguir em frente
sem essa carga nas costas
e sem peso na mente.

Enterrei na beira da estrada
os poemas que fiz,
mas que só eu li.
Quem sabe um dia brotem
e se tornem flores
no caminho de alguém.
Quero ir além,
me despir do passado
e me casar com o presente.

Que me reste apenas
o hoje de cada dia
e que minhas mãos
estejam livres e disponíveis
apenas para o cajado.

(Wanderley Navarro)

Venta um vento diferente

Venta um vento diferente
que apaga as velas do santuário,
a lamparina das casas,
as luzes da cidade
e a cidade igualmente.
Sopra um vento diferente
que apaga as estrelas da noite
e a noite igualmente.
Entretanto, aqui no meu canto,
permaneço aceso.

(Wanderley Navarro)

Você chega, quando chega

Você chega, quando chega,
belisca umas palavrinhas
e vai embora sem falar nada.
Meu poema só dura um minuto,
enquanto você fica de olhos nele.
É feito fosforo
que, riscado, acendeu,
mas depois que ilumina, se apaga,
se acaba e vira inútil palito.
Meu poema sou eu.

(Wanderley Navarro)

Se você me procurar

Casebre no penhasco 1

Se você me procurar
e não me encontrar
é porque eu me refugiei
naquele casebre pintado
no topo das montanhas
à beira do abismo.
É para lá que os olhos me levam
quando à tarde, cansado,
me recosto no sofá.
Lá eu passo meu tempo livre
livre do tempo.
Conserto uma goteira,
abro a janela, ajeito um batente,
caio a parede e nela
penduro este quadro do meu filho.
Depois sento no chão da varanda
e de cima, contemplo o mundo.
Na verdade é aqui que eu moro,
mas quando meus olhos dormem,
volto para casa.

(Wanderley Navarro)

As estrelas nascem

coração estrelinha
As estrelas nascem
e, segundo dizem, vivem bilhões
e mais bilhões de anos
Depois se consomem a si próprias,
se apagam e se desfazem.
Grande engano da ciência.
Elas existem fora do tempo,
as estrelas não morrem,
vivem para sempre.
São eternas!

(Wanderley Navarro)

Do fundo deste armário

Do fundo deste armário
raspo estes escritos esquecidos
que no passado quiseram ser poesia.
Assopro-lhes o pó, penduro-os no varal
para que se iluminem à luz do sol.
Assim, estendidos e nus,
parecem roupa que a gente compra
e tanto deixa guardada que saem de moda
e só terminam úteis como pano de chão.
São textos antigos, sem temas,
mas que agora, com seu olhar,
acabam de virar poemas.

(Wanderley Navarro)

Há um abismo

Há um abismo
entre o chão que piso
e a linha do horizonte.
Sou um aqui dentro
e outro, lá fora, distante.
O que sou, de um lado,
e o que busco, de outro,
são as duas margens do rio.
Entre os opostos, teimosamente,
construo meu poema.
Meus poemas são pontes.

(Wanderley Navarro)

Ao final da tarde

Ao final da tarde
depois de tanto brilho,
a Estrela do dia, agora mansa,
procura o descanso
no colchão de cores
estendido no horizonte.
E ali se deita e se cobre
e, aos poucos, fecha os olhos,
cochila e se apaga.
Boa noite, Sol*.

(Wanderley Navarro)

Uma estrela, assim tão bela

Uma estrela, assim tão bela,
nesta noite me espreita
num canto da minha janela
e tem no brilho esta pergunta feita:

Andarilho e peregrino,
diga lá, diga lá:
valeu tantos destinos?

Mas eu é que pergunto:
existe outro caminho
que não seja o caminhar?

Caminheiro e peregrino,
depois de alcançar tantos destinos,
te pergunto se és feliz…

Estrela, minha estrela,
agora te respondo sem rodeios:
sou bem mais, sou aprendiz!

(Wanderley Navarro)

Minha laranjeira doce

Minha laranjeira doce,
nestes anos todos,
quantos frutos você me deu!..,
Nos galhos estendidos feito braços
me oferecia tantas laranjas
que de esperar amadureciam
e no chão se acabavam.
Eu, perto de você passava sempre,
desatento, alheio a seus presentes.
Minha laranjeira doce e querida,
foi assim também com a Vida.

(Wanderley Navarro)

Cuco

 

 

 

 

 

 

De quando em quando,
o cuco abre a janela
e vem me avisar
que minha vida
tem uma hora a menos.
Ouço calado a advertência,
mas o cuco não sabe que tempo
é só um nome diferente
da eternidade.

(Wanderley Navarro)

Poema abandonado

 

Poema abandonado,
este meu. Só ele só.
Condomínio de palavras vazias
sem ninguém para rimar,
escondido da luz do dia.
Ilha deserta cercada de ausências
por todos os lados.
Sem olhos para ser amado…
Poema abandonado:
porque só meu,
e eu não conto.

(Wanderley Navarro)

Amo a tarde

Amo a tarde,
este espaço inexato entre
o dia que parte e a noite que vai chegar.
O sol se põe, mas, antes de acabar,
espera a primeira estrela brilhar.
Amo a tarde,
a brisa que suspira
e beija a boca da noite.
Sou também uma tarde aqui,
mas longe, depois do horizonte,
sou madrugada
parturindo um novo o dia.

 

(Wanderley Navarro)

Quero plantar minha casa

 

Quero plantar minha casa
num lugar alto e aberto
e, assim, viver nas nuvens,
acima dos montes
e ver o horizonte de perto.
À noite, com os dedos,
tocarei as estrelas
e, com o céu,
dormirei coberto.

(Wanderley Navarro)

O poema tem dois lados.

O poema tem dois lados.
De cá, eu escrevo
o que  me vem na mente,
mas, do lado de lá,
você lê o que sente.
Ao passar os olhos nos versos,
você, talvez, neles se encontre
assim como quem
se olha num espelho
dependurado no muro do texto.
Então, você entra nas linhas
e faz suas palavras que foram minhas.
Aí, o poema já não é mais meu.
Ler um poema é, sempre, fazê-lo seu.

 

(Wanderley Navarro)

Aqui, longe da cidade

 

fósforo riscado

 

 

 

 

 

Aqui, longe cidade,
a noite chega.
Cubro com pano escuro
o brilho das estrelas.
Desligo as lanternas
e sopro a chama das velas.
Peço aos vagalumes
para apagar os olhos.
A noite fica inteira.
Não que eu goste do mundo apagado.
Mas só na escuridão total
consigo ver e mostrar
o quanto é bela a luz
de um palito de fósforo riscado.

 

Wanderley Navarro

Um condenado, isolado, na escura cela

 

 

Um condenado, isolado, na escura cela
aguarda seu fim, já marcado, para amanhã.
O que fazer enquanto espera a morte?
O futuro tem apenas poucas horas.
Lembrar de alguém e abraçar o vazio?
Saborear cada garfo do último prato?
Sonhar mais uma vez o mesmo sonho
com que tantas vezes enfrentou a realidade?
Arrepender-se e falar com Deus?
Condenar-se, mais uma vez, torturar-se
e ser, de si mesmo, o próprio carrasco?
Gritar e insultar as surdas e frias grades?
Viver o presente, não pensar no futuro
e dormir como quem foge de tudo…
O que se pode fazer
quando o encontro com a morte
já tem hora marcada?
Imaginar outro mundo, sem chaves?
Respirar fundo, erguer a cabeça
e se admirar num espelho inventado?
O que fazer quando o amanhã
é mesmo só amanhã e nada mais?
Que fazer neste tempo de espera?
Eu fecho os olhos e invento o céu
bem na hora do poente
e permaneço ali esperando
não a morte, mas a primeira estrela.

Wanderley Navarro

Há coisas definitivas

 

Peq prin e a rosa

 

 

 

 

 

 

 

Há coisas definitivas.
Não se alteram diante do sim ou do não.
Não importa se chova ou faça sol.
Nem dependem do humor ou do horário.
São definitivas.
Irreversíveis.
Imunes ao tempo.
Transcendem distâncias.
Dispensam palavras.
Duram mais que o granito
que perpetua um monumento.
Vivem mais que a vida.

Wanderley Navarro

Minhas roupas

 


Minhas roupas
estão vazias de mim.
Meu corpo está nu de si mesmo.
Minha alma se evaporou no tempo.
Está vago o meu lugar.
Sou casa sem paredes nem telhado,
uma aparência cheia de nada.
Engano apenas quem me vê de fora
porque viro espelho de quem me olha.
Quem me prova que eu existo?
Talvez Deus acredite na minha existência.
Meu ser é uma lacuna que perambula.
Do nada que sou
sobra apenas, dentro de mim,
aquele que alguém ama.

Wanderley Navarro

Deixo que a tempestade chegue

Deixo que a tempestade chegue
estalando o chicote dos raios,
os trovões acordando a noite,
o vento rasgando meu sono.
Deixo que a chuva caia à vontade,
a enxurrada me carregue
e afogue meus pensamentos.
Assisto o bombardeio de relâmpagos,
estou aqui, à disposição dos raios.
A vida é uma tempestade que passa.

(Wanderley Navarro)

 

Não se apague

Não se apague.
Mantenha a cabeça erguida
e os olhos alevantados, à frente.
Os braços soltos, dispostos
para o desafio do presente.
A fé não se pode romper
ainda que esteja por um fio.

 Não desista de si,
não se deixe por menos,
nem ponha de lado ser gente,
e no meio de tanta mediocridade,
aparências e superficialidades,
conquiste ser você mesma.
Alimente a verdade  que te faz viver.
Retome o projeto que te tira o sono.
Não aceite que a esperança
perca para a melancolia.
Não permita que seu poeta morra,
ainda que ele só exista dentro.
Não se apague nem esmaeça seu brilho.
Não nos basta lâmpadas acesas.
Precisamos de uma estrela.

(Wanderley Navarro)

 

Nascemos para voar

 

 

Nascemos para voar.
Planar acima das nuvens,
acima dos pássaros e dos aviões
que só rastejam
na fina camada da atmosfera.
Nascemos para ir mais alto, além.
Por isso, nascemos sem asas,
sem essas que as aves têm.
Consiste nossas asas em não tê-las
para que não as tendo
possamos criá-las, não nas costas,
mas dentro de nós mesmos,
e, assim, evitar que nos limitem
ou se machuquem com o vento.

Nascemos para voar mais longe,
ir além de nós mesmos,
superarmos as distâncias,
transpormos horizontes,
atravessarmos  oceanos
e as paredes do infinito,
e então chegamos ao coração
de quem respira ao nosso lado.
Nascemos para voar
e é este voo que nos torna humanos.

(Wanderley Navarro)

 

 

ORAÇÃO

 

 

Não me deixe, nem se aparte
e se eu te abandonar e fugir
abandone-se a si mesma
e fuja atrás de mim.

A solidão, às vezes, me fascina,
mas não me permita ser meu dono.
Não me deixe sozinho comigo mesmo
nem aceite que eu desista de ser humano
e me case com o Nada.

Ainda que eu te mande embora, não vá.
E se eu ordenar que saia e desapareça,
não me ouça nem me obedeça.

Se eu dormir, me acorde,
me acorde com um beijo
quantas vezes for preciso
pois a vida é breve
e dura menos que um bocejo.
E se eu me calar, e calado ficar,
fale você no meu lugar.

Não se canse de mim, nem me esqueça,
por mais que eu mereça…
nem me reduza a uma simples lembrança.
Não permita que eu morra
ainda que seja este o meu desejo.

Seja meu remédio
mesmo que eu não queira me curar.
Não me deixe ser livre
se eu escolher te abandonar.
Caso eu decida partir, desertar e sumir
não respeite a minha decisão.
Não se canse nunca de me ensinar
mesmo que eu nunca aprenda a te amar.
Se eu pedir que você se afaste e me solte,
me abrace ainda mais forte,
nunca desista de me salvar.

Ainda que eu, a mim mesmo, me abandone,
setenta e sete vezes me busque,
me encontre, me leve de volta, me abrace
que só seu abraço é meu lar.
Se eu esquecer meu nome
e minha alma morrer antes de mim,
ainda assim, não saia da minha frente,
deixe meus olhos em você
para eu não esquecer o que é a vida.
Se eu não mais existir,  por favor, me invente.

(Wanderley Navarro)

 

 

Gostaria que as estrelas fossem pequenas

Gostaria que as estrelas fossem pequenas.
não muitíssimo maiores, como querem os cientistas.
Gostaria que fossem mesmo pequenas,
bem assim, como pelos nossos olhos são vistas.

E que, além disso, fossem mais próximas,
não saíssem lá do céu, mas pudessem ser alcançadas
ao menos, por quem soubesse construir escadas.

E que a luz das estrelas não queimasse,
mas fosse feita com brilho de incontáveis diamantes.
Assim, pudesse ser tocada e, sem ferir, só fizesse iluminar
quem conseguisse chegar mais perto dela.

Sei que é querer muito, mas seria tão bom
se as estrelas além de pequenas, próximas e iluminantes
também tivessem coração.

(Wanderley Navarro)

Abro os olhos

Abro os olhos, aguço meus sentidos
e assisto ao vivo, o indizível instante da vida.
Não importa responder quem sou,
basta-me o fato de ser, estar aqui.
Saboreio fazer parte do mistério,
do inexplicável que me atordoa.
O tempo me foi dado, não sei quanto,
mas cada instante é a eternidade.
Não sei onde vão dar estes meus dias
nem sei se tudo isso tem sentido,
mas valeu a pena sentir
a alucinante aventura de ter vivido.
Devo confessar que nada aprendi,
mas fiquei sabendo o quanto não sei.
Razões? Não precisa. Foi me dado existir
e tomar um porre de vida.
A cadeia alimentar, as cruzes do caminho,
os desencontros, a peste da ignorância …
dói tanto não saber o porquê,
mas por maior que seja a mágoa,
nada se compara ao fato de hoje,
estar aqui e te escrever estas palavras.
Não sei se sou eterno, mas sou irreversível:
ninguém me tira, ao menos, ser nada.

(Wanderley Navarro)

Muitas pessoas

Muitas pessoas entram e saem da nossa vida
todos os dias, a todo instante.
Algumas conhecemos socialmente,
mas da maioria sequer saberemos o nome.
Muitas pessoas entram e saem da nossa vida.
Mas algumas não passam.
São pessoas únicas, singulares, incomparáveis
que ficam para sempre ao nosso lado,
ainda que fisicamente distantes.
Entram na nossa história
e nela permanecem para sempre.
Nunca se tornam passado, nunca se apagam.
São o nosso melhor presente.
São pessoas que nos iluminam
e que fazem a vida ser mais bela
e mais venturosa nossa existência.
Sem elas o mundo ficaria vazio
e a vida mudaria de nome.
Há pessoas que não passam.
São definitivas e ponto.

(Wanderley Navarro)

 

A história não desacontece

A história não desacontece
nem a vida volta atrás,
o que foi, continua sendo,
o tempo nada desfaz.
Há laços que ninguém desata.
Não se pode desassoprar
um dente-de-leão.
Os gestos são irreversíveis.
Não se deleta um olhar…

As palavras ficam gravadas,
dentro de nós não se apagam
nem podem ser desfaladas.
O que foi dito continua valendo
para sempre, ao infinito.

O amor, de verdade,
não tem data de vencimento
nem prazo de validade.
Algumas coisas não têm volta,
não se desfazem, são definitivas,
não passam, não acabam jamais.
Alegra-me que sejam irreversíveis
e para sempre continuem vivas.

(Wanderley Navarro)

Ao longo desta rodovia bem cuidada

 

 

Ao longo desta rodovia tão bem cuidada,
me chama a atenção aquele casebre
perdido lá no meio daquela macega
do outro lado do vale que nos separa.
Na paisagem deslumbrante, este casebre
humilde e abandonado, me salta à vista.
Os carros e a rodovia se esquecem dele.
A noite chega e a luz frouxa das lamparinas
acende as duas janelas pequeninas.
A porta aberta é um farol na solidão,
um farol que grita e pede para ser notado,
mas é abafado pela luz alta dos carros.
Os pobres que ali moram, ilhados, sozinhos,
ignoram ser cidadãos, são seres humanos sem voz,
à margem da história e da moderna rodovia.
Olho de novo o casebre e me pergunto baixinho:
Estes que lá vivem e morrem,
serão mais solitários que nós?

(Wanderley Navarro)

A estrela d’Alva

A estrela d’Alva
me perguntou se sou feliz…
Respondi: não e sim.
Porque há um vazio no meu ser,
um vazio que não me cabe,
mas, bem sei, o que me falta,
de repente chega.
Dói-me a pergunta
que ainda não sei responder,
mas quando a gente sabe
que a resposta existe
até a dor vira prazer.
Saber que há oásis por perto
é mais que um deserto sem fim.
A estrela d’Alva
me perguntou se sou feliz…
Respondi?

(Wanderley Navarro)

Ao andarilho faminto

Ao andarilho faminto
é desumano oferecer um prato cheio,
mas permitir que só coma uma garfada.
Não se pode oferecer um copo de água
ao operário sedento e recomendar-lhe
que somente molhe os lábios.
É insano exigir que a amante no cio
se contente com um beijo…
Pode alguém dizer tudo o que sente
usando apenas meias palavras?
Melhor nada que pouco.
Mais alto que o grito é o silêncio.

(Wanderley Navarro)

 

Meu filho dorme

 


 

 

 

 

 

Meu filho dorme.
Durma, meu filho.
O tempo não existe
para quem está no sono.
Tudo é provisório…
Num nada a noite passa.
Chegando a aurora,
o escuro se dissipa.
O Sol desponta logo
e quando você acordar
já vai ser dia.
Levante-se desta cama
e venha logo,
o café está pronto.
Te espero na cozinha.

(doze anos sem você)

As onze-horas do meu jardim

Onze horas
As onze-horas do meu jardim,
na maior parte do dia,
vivem enroladinhas, guardadas,
como se fossem botões.
São flores belas e coloridas,
mas que, na maior parte da vida,
ficam trancadas em casa,
fechadas dentro de si mesmas.
Só se abrem na luz intensa
e só se mostram na hora do sol a pino.
Tantas vezes já pensei em perguntar-lhes
porque se abrem tão pouco
se a vida é tão breve…
Melhor seria abrir-se de manhã
e, abertas, passar o tempo inteiro,
aproveitando, ao máximo,
a curta existência.
Porém, neste caso, não fica bem
eu, um caramujo, dar conselhos.

(Wanderley Navarro)

Existir

Existir
é sempre existir para alguém,
 
alguém que nota quem somos.
 
Sozinhos somos nada e ninguém,
 
são os outros que nos fazem.

Existir 
é ser mais que um,

sair do singular, ser plural, 
é ser de alguém que também é nosso.
 
É abandonar ser dono da gente.

Existir é estar do outro lado de si.

Nascer e estar aqui
é um ato insuficiente e solitário.

O tempo não se mede

pela soma dos aniversários.
A vida não começa no parto,

a existência acontece de fato
na feliz coincidência
de amar e ser amado.

(Wanderley Navarro)

A chuva segue mansa

A chuva segue mansa
no meio da madrugada.
Desce macia sobre a mata,
desliza sobre a ramagem.
Atento, distingo os pingos
batendo nas telhas de barro
tocando no telhado ondulado
como se fosse uma surda marimba.
Depois a chuva desaba
e na calçada estala.
Ouço em silêncio essa música das águas.
Meu pensamento passeia lá fora
porque pensamento não se molha.
A chuva não dorme nem passa,
feito a minha insônia.

(Wanderley Navarro)

 

Não vou mais dormir.

Não vou mais dormir.
Nem mais uma noite, nem mais um dia.
No tempo que me resta,
estarei atento, de olhos abertos,
contemplando o mistério da vida.
De manhã, o sol não mais
me encontrará deitado,
não mais haverá calendários
porque a vida será um só dia,
ora escuro, ora claro.
Permanecerei acordado,
bebendo cada instante
que ainda me é dado.
Não permitirei que o sono
me roube um terço da vida.
À noite, acenderei a lua
e a lua será sempre cheia.
Estarei de plantão, sem intervalo.
Farei da existência
uma desejada insônia.
Ainda que as luzes se apaguem,
as estrelas ficarão acordadas comigo.

(Wanderley Navarro)

Ouço o grito da folha em branco.

Tela de computador

 

 

 

 

 

 

Ouço o grito da folha em branco.
Não sai dos meus olhos o seu vazio,
esta tela fica sempre na minha frente,
o silêncio dela dói nos meus ouvidos.
Ouço o grito da folha sem nada…
Pede-me palavras, sentimentos,
mensagens, quer meu pensamento,
me implora emoções e poesia.
Pede minha alma impressa.
Ouço o grito da folha vazia
pedindo para ser escrita,
feito moçoila sozinha
não querendo morrer virgem,
feito o deserto pedindo água.
Mas se você me abraça,
essa folha some, se apaga, se cala.

(Wanderley Navarro)

A noite me acordou

A noite me acordou,
me chamou até a janela,
apontou o céu salpicado de astros
e me disse, apontando as estrelas:
– Dentre tantas, escolhe uma,
e que seja para sempre a sua.
Contemplei o universo imenso,
baixei a cabeça e decidi.
A noite insistiu: – Qual delas?
– Nenhuma dessas, respondi,
ainda que fascinantes e belas,
mas a que vês nos meus olhos
e brilha dentro de mim.

(Wanderley Navarro)

O horizonte bebe o resto do dia

2014-02-28 18.55.28

 

 

 

 

 

 

 

O horizonte bebe o resto do dia,
bebe a luz num trago demorado
como quem, até o último gole, se delicia.
O sol se vai, mas antes de partir,
cobre de veludo azul os montes,
irradia traços no barrado do poente,
ilumina a tarde, acende as nuvens,
esparge nelas as tintas do arco-íris,
enfeita o palco do céu de cores vivas.
O cenário sem igual está pronto.
O mundo aguarda ela chegar.
O silêncio é uma orquestra atenta
esperando a primeira estrela entrar.

(Wanderley Navarro)

As palavras têm peso

As palavras têm peso
e, quando atiradas, machucam,
outras vezes, nos levam ao paraíso.

O silêncio não tem letras,
mas, às vezes, é uma cruz pesada
apesar de invisível.

(Wanderley Navarro)

Sol interior

Sol interior

Vivemos dias plenos de luz.
O sol madruga e, à tarde,
se demora no poente,
sem vontade de partir.

Dias iluminados.
A luz é tanta que até por dentro
a gente se pode ver.
Além do horizonte nossa vista alcança.
Todas as direções apontam caminhos.
Dias coloridos, cheios de vida.

Vivemos dias com tempo de sobra,
o relógio vai devagar
mastigando os minutos
e saboreando a existência.
Vivemos mergulhados na luz
porque todas as manhãs
o sol nasce dentro de nós
e nunca deixa a noite chegar.

(Wanderley Navarro)

Deixa na chuva

Chuva jpeg

 

 

 

 

 

Deixa na chuva
as palavras empoeiradas
que, feito plantas, na estiagem,
murcharam, quase morreram.

Deixa as palavras na chuva,
feito crianças, deixa que se molhem,
quem sabe delas brote um sentido
e aprendam, de novo, a falar.

Estende ali as palavras,
feito bandeiras, sedentas de água,
deixa que bebam e bêbadas
ameacem enxugar o aguaceiro.

Penduro estes versos no tempo
estendidos no ar, em invisíveis varais,
para que enxague, limpe as palavras
e a chuva ponha os pingos nos iis.

Deixo minha alma no tempo
que a alma é roupa branca
e a água da chuva é boa
para a alma clarear.

(Wanderley Navarro)

Procuro, em mim, palavras nuas

Procuro, em mim, palavras nuas,
sem trajes de gala nem joias caras,
sem maquiagem nem disfarces,
palavras, apenas elas mesmas,
limpas, sem adendos, nem remendos,
palavras inteiras, plenas de si mesmas,
palavras puras feito água da mina.

Procuro, em mim, palavras nuas
desvestidas de enfeites
ou de qualquer outro adereço,
inteiramente despidas,
mas que tenham alma dentro.

Procuro, em mim, palavras,
não exijo que sejam alegres,
basta que não sejam meias
nem tenham um duplo sentido.
Não é necessário rimar com nada
a não ser, elas mesmas, consigo.
Não busco letras mortas ou vazias,
mas que respirem e estejam vivas.
O Aurélio diz que elas não existem,
assim despojadas e cruas.
Mas meu silêncio…
não será o silêncio uma palavra nua?

(Wanderley Navarro)

Aqui, diante do meu lago

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Aqui, diante do meu lago,
assisto a noite chegar.
O espelho das águas reflete
as cores que o sol deixou
e as flores das árvores ao redor.
Pouco a pouco, porém,
o colorido desmaia, se acaba
e o escuro invade o lugar.

No céu do fundo das águas
as estrelas não se apagam,
mesmo no fundo elas brilham,
brilham de baixo para cima.

A brisa por um instante,
sopra rugando a face do lago,
e então, nele, tudo naufraga.
Fecho os olhos e apago o mundo.
Anoiteço. Boa noite, vida!

(Wanderley Navarro)

A janela aberta e grande sempre foi

A janela aberta e grande sempre foi
o lugar mais importante da minha casa.
Por ela eu fugia e meu pensamento
criava asas e me levava onde eu quisesse.
Mesmo com os pés plantados no meu jardim,
ainda assim, meu olhar não saía do horizonte. 
Deixava a festa que rolava no salão
para, numa sala ao lado, escrever poemas.
Enquanto embalava meus filhos,
só fazia fugir para o futuro deles.
O amanhã sempre falou mais alto.
Pensava tanto em voar
que nem curti a maciez do ninho.
Caminhei olhando o cume,
nem me lembro do caminho.
Esqueci meus olhos nas estrelas,
nem vi o chão passar.
O melhor lado do rio
sempre foi a outra margem.
Gastei com futuros meu presente.
Com sonhos, devaneios e delírios
consumi o tempo que me foi dado.
Assim, longe de mim, perdi a vida.
Mas, tudo bem… Foi bem perdida!

(Wanderley Navarro)

Gastei o tempo da minha vida

Borboleta e pedra

Gastei o tempo da minha vida
buscando alcançar as estrelas.

Bem sabia que não as tocaria.

Mesmo assim, gastei.

Sei que a distância é infinita

e é impossível chegar lá.

Mas sei também que não posso

deixar de crer e caminhar.

O passo a passo é meu jeito de respirar.

Fazer de conta que é possível

é meu truque para estar vivo.

Sei que não chegarei

lá onde meu coração está.

Não alcançarei as estrelas,

mas viver é não acreditar nisso.

(Wanderley Navarro)

A vida é uma viola

A vida é uma viola
de muitas cordas
que a gente afina todo dia,
mas sempre pode
melhorar o som.
A vida é uma viola
que a gente segura no colo
faz um ponteio, risca um acorde,
para que ela fale por nós.

Às vezes, esquecida num canto,
aos poucos desafina,
enferruja as tarraxas.
Ali jogada, perde a valia,
perde a voz, morre calada.
A viola que sou, no entanto,
assim não há de calar.
Pode até perder os braços
de quem me toca,
mas sem boca, te garanto,
não há nunca de ficar.

(Wanderley Navarro)

Quem sabe ler

Quem sabe ler
vê, atrás da folha,
o que o branco quer dizer
e ouve o grito analfabeto
que não sabe escrever.
Às vezes, as letras são brancas
numa página da mesma cor.
Os olhos que veem o invisível
sabem ler o que não está escrito.
Há um poema escondido
nos olhos de cada leitor.
 
(Wanderley Navarro)

Teimosia da Vida

Teimosia da vida 4

No tronco, há muito decepado,
na ponta de um fiapo de casca,
ergue-se um broto, vitorioso,
verde como a esperança,
agitando a bandeira da vida.

Quem pode, quem pode
estancar , dentro de nós,
a teimosia da Primavera?
A vida não aceita a morte.
Ressuscita a cada instante.
Reinaugura-se a cada dia.
Luta, agarra-se à existência
com unhas e dentes.
Somos brotos verdes
desafiando, a cada suspiro,
o Nada que nos ameaça.
somos todos seres carentes
que não cabem nas sementes
nem dentro da gente…
Essa força incontida
invade o mundo e sempre vence.
Que vitória é maior que a Vida?

(Wanderley Navarro)

A noite embaralha os seres

A noite embaralha os seres
que habitam o nosso mundo.
Tudo vira sombra, perde a pintura,
o escuro mistura as silhuetas,
funde as formas, desfigura …

Mas quando nasce o novo dia,
o sol coloca a bagunça em ordem,
devolve cada coisa para si mesma,
distingue conceitos, devolve limites,
organiza as gavetas da vida
e cria de novo o mundo.

No princípio, estas palavras
eram apenas um amontoado de letras,
obscuras, desfiguradas, indefinidas
sem rumo, sem prumo,
mas o sol chegou e nelas passou os olhos
então, e só então, ganhou esquema…
As partes fizeram um todo,
o todo ganhou sentido,
fez-se a luz em cada verso
e meu texto virou poema.

(Wanderley Navarro)

A wyda

A wyda é uma delýcya
que a gente saboreya
aos poucos
e cada pouco
são os dyas.

(wy)

A estrada de chão

A estrada de chão,
empoeirada,
precisa de água e chuvarada.
Alguém, perdido no deserto,
precisa de esperança
para seguir em frente.
A mãe precisa do filho.
A planta precisa da luz.
O filho pródigo, contrito,
precisa de pai e perdão.
Quem ama, precisa de um abraço.
A noite precisa das estrelas,
os pés precisam de chão.
Eu preciso dos seus olhos,
sem eles, meu poema não existe.

(Wanderley Navarro)

 

A estrela-guia, no alto

A estrela-guia, no alto,
me convida, sua luz me fala
para que eu passe adiante
e a deixe para trás.

Mas por mais que eu vá
e bem depressa ande,
ela permanece lá, no alto,
pairando acima de mim,
ela sempre à frente
eu, no mesmo lugar.
Impossível sair de sua vista
e fugir do seu olhar.

Mesmo que se esconda
nas escuras nuvens,
ainda assim não vai se apagar
porque eu a guardo dentro
e dentro dos meus olhos
ela sempre há de brilhar.

(Wanderley Navarro)

O amanhecer de um lindo dia

O amanhecer de um lindo dia.
A chegada da notícia esperada a vida inteira.
O abraço de alguém que nos ressuscita.
A volta do filho que nos faz renascer.
As lágrimas que nos redimem.
O beijo que nos mata a fome.
A emoção do amor primeiro,
As risadas no bar dos amigos.
A aventura de pensar e ser livre.
O banho de cascata num dia quente.
A estrela primeira a brilhar no poente.

Eis os retratos que eu daria
a quem me perguntasse
o que é a Vida!

(Wanderley Navarro)

Seguirei em frente

Seguirei em frente…
Deixarei, enfim, a minha ilha.
A imensidão do mar me chama.
O desconhecido me desafia.

Mesmo sem querer,
fugirei do Paraíso,
eu e meu eu apenas.
Do resto levo nada.
Aqui deixarei o silêncio da noite,
o tapete verde dos trigais,
a água pura dos mananciais…
Deixarei, no pomar, as tangerinas
e a doçura da laranja-lima.
Deixarei minha cascata
e seu chuá que não se cala.

Deixo também neste lugar
meus poemas inéditos, escritos no ar.
Os rascunhos que tanto tempo guardei,
os projetos que me fizeram viver,
ficarão enterrados
num lugar que só eu sei.

Só levarei comigo
este céu feito de azul e infinito
e a estrela da tarde
que sempre estará onde eu estiver.

(Wanderley Navarro)

O sol se põe mais uma vez

O sol se põe mais uma vez.
Vênus me olha sem piscar.
A brisa mansa me sopra,
sou fogueira quase morta
que ela insiste em acender.
O céu brinca com as cores
e ensaia mais um amanhecer
no outro lado do mundo.
Desligo a luz da varanda,
e ajudo a noite a chegar.
As estrelas me encontram
sempre aqui, neste lugar.

(Wanderley Navarro)

Deixo que venha a chuva

Deixo que venha a chuva…
Seja bem-vinda, sinta-se em casa!
Quantas vezes deixei a chuva chover?
Acho que esta é a primeira vez.
Vem chuva que te quero
feito um nordestino no sertão.
Pode chover à vontade,
se lhe aprouver, vire tempestade.
Não vou torcer para que logo passe,
nem vou ter saudade do céu azul.
Deixo que a chuva caia sem parar.
É que hoje me dei conta:
tenho tantas lágrimas guardadas,
deixo que ela chore no meu lugar.

(Wanderley Navarro)

Quando era inverno

Quando era inverno
a madrugada me acordava
e me fazia ouvir o vento
assoviando por entre os galhos finos
das árvores peladas, tiritando de frio.
Agora, na primavera,o canto é outro.
As árvores cobertas de verde,
de vestidos longos e folhagens espessas
fazem o vento mudar de tom.
Na madrugada, ainda me acorda
para ouvir sua voz grave, quase rouca,
mas redonda e aveludada.
O vento canta o tempo inteiro
e, na sua música, coloco a letra.

(Wanderley Navarro)

Deste lado

Deste lado,
o pé plantado
no chão batido…
                      do outro, a utopia,
                        a vontade de voar
                                e estar acima.
Deste lado, o deserto,
a falta de destino,
a sede da areia quente…
                  do outro, a miragem,
                       a teimosia da vida
que não deixa o sonho morrer.
Deste lado, a realidade…
                              do outro, você.

(Wanderley Navarro)

A esperança morreu

A esperança morreu…
e não foi a última a morrer.
Não foi hoje seu passamento
e nem sei quando aconteceu.

As cores desbotaram, apagou-se o luar,
os projetos, na gaveta, caducaram,
nas estações, o ano pulou a primavera,
a notícia boa desistiu de chegar.

A esperança, de vez, morreu…
A Terra Prometida sumiu do mapa,
o futuro não consta mais no calendário,
a poesia desaconteceu.

Os dias seguem sem rumo,
a História não sabe aonde vai.
A esperança, de fato, morreu…
e o assassino dela sou eu.

(Wanderley Navarro)

Naquela noite quente

 

Naquela noite quente
as estrelas chegaram
como chegam sempre,
mas não ficaram.

Aos poucos,
foram se afastando, fugindo,
e naufragaram no fundo do céu.
A lua foi minguando, sumindo,
tornou-se apenas um pingo
e se apagou no escuro breu.

Naquela noite quente
a noite também morreu,
pois, sem a lua e as estrelas,
a noite perde a razão de ser.

(Wanderley Navarro)

O que de mais útil

O que de mais útil,
nesta vida, se pode fazer?
Abrir a camisa e sentir no corpo
a brisa do mar.
Deixar o sol te cobrir a pele
e a luz vestir seu ser.
Rascunhar, dia a dia,
o projeto de ser gente.

O que de mais útil,
nesta curta vida,
podemos fazer?
Degustar um bom vinho
na roda de amigos,
ganhar o sorriso de uma criança…
Amamentar nosso filho,
abraçar, sem pressa,
a pessoa amada.
Beber o azul do céu
e saborear o infinito,
contemplar a madrugada
e dar as estrelas de presente
para si mesmo.

O que mais podemos fazer,
nessa nossa inútil vida?
Regar os sonhos
semeados no pensamento,
deixar nosso olhar  fugir
para além do que podemos ver
e segurar no colo a criança que somos…

O que de mais útil, se pode fazer,
neste efêmero instante da vida?
Um poema, talvez.

(Wanderley Navarro)

Acredito nas flores

miosotis

 

 

 

 

 

Acredito nas flores.
Cedo desabrocham
e vivem tão pouco.
Frágeis e macias
se abrem feito livro,
mas quase nunca são lidas.
Eu uso as palavras,
elas, usam as cores.
 
A cor é a verdade das flores.
Acredito na beleza
que elas anunciam
e no perfume que exalam.
Acredito no colorido
de suas verdades.
 
As flores falam,
às vezes, perdidas no pasto,
gritam buscando os olhos
de quem, distraído, passa.
As flores são tantas e diferentes,
assim como nós, que somos gente.
Contemplo a variedade de cores.
Acredito na verdade das flores.
 
(Wanderley Navarro)

O exato instante da vida

O exato instante da vida
é agora.
Sou maior por dentro
que por fora.
Para alcançar o infinito
não preciso ver longe,
apenas fechar os olhos.

(Wanderley Navarro)

Ainda que o vendaval

Ainda que o vendaval
destroce a mata e devaste as ruas,
o crime organizado assuma o governo
e a justiça, bem paga, viva de olhos vendados,
ainda assim,  vale a pena viver.

Ainda que a ignorância cresça
e continue sendo nossa maior miséria,
ainda que, em nome do povo,
os corruptos vendam o mundo
e os safados controlem o trem da história,
ainda assim,  vale a pena viver.

Ainda que estrelas vermelhas
sejam sequestradas e, profanadas,
sirvam como símbolo de um partido,
e o grito dos pobres seja abafado
e sejam declarados ilegais seus gemidos,
ainda assim,  vale a pena viver.

Ainda que a morte, tire da vida o sentido,
e as guerras continuem um grande negócio
e os mocinhos do filme,
enfim, terminem derrotados,

ainda assim,  vale a pena viver.

Ainda que a utopia seja puro delírio,
o amor seja impossível
e o egoísmo semeie desumanidades…
Ainda assim, vale a pena viver
Por quê? Porque existe você!

(Wanderley Navarro)

O sol é maior

O sol é maior
do que muitos pensam
e mais próximo do que se imagina.
Engana-se quem acha que na cromosfera ele termina.
Assim como nossa aura faz parte de nós
assim, a coroa de luz também é corpo do sol.
Por isso, ele é maior e está bem perto.
Quando amanhece, entra pela janela,
acorda nossas vidraças,
e acende nossos olhos.
Passa o dia encostado em nós,
aquece a nossa pele,
alimenta as plantas e nossas almas,
engravida as sementes do campo.
O sol é bem perto, mais que vizinho,
na Terra, está em casa.
Erra quem diz que se encontra
a cento e cinquenta milhões de quilômetros,
distante do nosso planeta.
O corpo do sol é tamanho de sua luz,
e, agora, está aqui e nos abraça.

(Wanderley Navarro)

O sol me ensinou

O sol me ensinou
que sem sua luz somos cegos.
De que adianta a gente ter os olhos
se o mundo inteiro estiver apagado?
Nem mesmo a noite conheceríamos
se não existisse o brilho das estrelas.
Se tudo fosse um escuro de breu,
de que adiantaria olhar
se nada pudesse ser visto?
E se nada eu pudesse enxergar,
como saberia quem sou eu?
A luz define os corpos e os conceitos,
é ela que, a cada segundo, cria o universo
e nos abre a porta do mundo.
Nossos olhos não estão em nós,
a visão nos vem de fora.
Ao contrário do que se pensa,
a gente vê de fora para dentro.
Por isso, de aurora e mais aurora,
nossos olhos têm sede imensa.

(Wanderley Navarro)

O tempo me rouba

Relógio tempo
O tempo me rouba
de nós.
Começa começos,
mas só sabe ter fim.
O tempo nos arranca
de nós.
Por isso, sempre,
o tempo dói.
Mas essa dor passa.

(Wanderley Navarro)

A poltrona dos sonhos

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Se havia alguém de quem aquele menino gostava era do seu avô. Passava horas com ele. Ouvia e perguntava. O velho era um tipo franzino, judiado pela idade e pelas intempéries da vida. Raramente saía. Doente das pernas, passava a maior parte do tempo sentado num banco de madeira que ficava ao lado da porta da cozinha. O menino chegava, pedia bênção e puxava prosa. Feito abelha na flor, gostava também ele de rodear o avô. Nunca falou alto, mas tinha um sonho: comprar uma daquelas poltronas estofadas, macias e reclináveis que ele viu na televisão para dar de presente ao avô. O velho magricelo e alquebrado, agora no fim da vida, merecia bem mais que um banquinho de madeira dura.

Mas ele mesmo não tinha ganho e a família passava com o dinheiro contado para as despesas de cada mês. Chegou a jogar diversas vezes na loteria e até fez a promessa de que, se ganhasse, compraria uma poltrona igual para cada velho da redondeza.

Um dia o avô se foi. Mas o sonho de ter uma poltrona, como aquela mostrada na televisão, sobreviveu. Quando fosse grande, e ganhasse bem, seria a primeira coisa que compraria. E a daria de presente a si mesmo…

O menino virou homem, se casou. Comprou os móveis indispensáveis, mas não pode se dar ao luxo de comprar a supérflua poltrona. Prometeu a si mesmo que a compraria quando chegasse o herdeiro. O sonho agora era chegar do serviço, acomodar-se na poltrona macia e, ali, ninar o filho. Isso sim seria vida… Mas quanta despesa dá uma criança…não havia dinheiro que chegasse. A poltrona esperaria…Quem sabe no final do ano…Mas o décimo terceiro salário foi gasto antes de chegar… O desejo de comprar uma bela poltrona daquelas reclináveis, onde pudesse ver televisão, ou olhar para fora da varanda, não se calava. Porém, as despesas com os estudos do filho, o aluguel, o gasto no mercado e a conta da farmácia falavam mais alto.

O tempo foi passando e aquele menino também ficou velho. De labutar não parou. Fazia bicos, empreitava serviços nos finais de semana, mas precisava ajudar o filho que, logo, estava se casando e ajeitando a vida. Quando se aposentasse, aí sim, compraria a sua poltrona e daria a si mesmo o que tanto desejou para o seu saudoso avô. Mas ficar velho custa caro. Os remédios dele e da patroa não deixavam. A saúde vinha antes. A poltrona ficou para depois…Quem sabe um dia seu filho teria uma?

(Wanderley Navarro)

Primavera

Setembro primavera

O principal lugar do sítio

O principal lugar do meu sítio,
a parte mais nobre,
não é no chão, não é de terra,
é acima, o céu que o cobre.
Nos dias de sol é azul,
azul sem igual,
enfeitado de nuvens brancas.
À noite, os astros são incontáveis.
Sento-me na varanda
e respiro a brisa perfumada
pela flor humilde do alfinero.
A lua é a única lâmpada acesa.
De vez enquando, um vagalume
risca o ar, brincando de estrela.
Quem sabe o que é o infinito?
Pois eu sei: é o céu do meu sítio.

(Wanderley Navarro)

Faz tempo que a terra

Faz tempo que a terra
não sabe o que é chuva,
mas uma coisa é certa:
quanto mais a seca aperta,
mais essa pata-de-vaca
se cobre de flor.

Essa árvore de flores vestida
bem parece o nosso ser:
quanto mais a sede aumenta,
cresce ainda mais, fica maior,
nosso desejo de florescer.

(Wanderley Navarro)

De ausências somos feitos

De ausências somos feitos,
do que não existe é feita nossa carne.
As utopias são os ossos que nos sustentam,
nossos olhos estão cheios de nada.
Os caminhos, nós os abrimos
estendendo lacunas no chão.
Remendando os vazios
costuramos as roupas que nos cobrem.
De nãos é feita a nossa alma,
o que nos falta, nos faz crescer,
o inalcançável nos faz caminhar,
o que não está aí, nos faz fazer.
O tempo que nos escapa
preenche os nossos dias.
De esperanças somos feitos,
de esperanças e mais nada
e ao vácuo, espaço que nos rodeia,
chamamos de realidade.
A vida é provisória e emprestada.
Repleto de carências é nosso ter.
Nem a nós mesmos temos.
De ausência somos feitos:
o nada é a substância do ser.

(Wanderley Navarro)

Davi venceu Golias

Davi venceu Golias,
a Holanda venceu o mar.
O homem vence distâncias
e ultrapassa os limites
do sistema solar.

Cristo venceu a morte,
a semente rasga o chão
e vence a escuridão.
A barragem peita o peso das águas
e vence a corrente do rio.
O homem pode vencer o medo
se o amor que o move for mais forte.

Davi derrotou o gigante Golias…
Mas, às vezes, a luta é diferente:
Quem pode vencer o que sente?

(Wanderley Navarro)

Às vezes, me abandono

Às vezes, me abandono,
voo longe, fujo embora,
desgarrado do meu nome.
Os olhos me dão asas,
deixo-me solto
ao sabor do vento.
A esperança me desamarra,
abandono o peso dos pés.
A luz do Sol me decompõe,
me dissolve no ar
e me devolve quem sou.

(Wanderley Navarro)

Tout le monde

Nada melhor que água

Nada melhor que água…
água pura e cristalina
que sai do ventre da terra
e chove de baixo pra cima…
Água fresca que de tão fresca
chega a ser doce,
água da minha mina.
Com ela me sacio e refresco a boca,
nela mergulho, me banho
e dela meus poros têm sede,
nela se embebeda meu corpo inteiro.

Água pura e cristalina
água da minha mina.
Não há melhor bebida!
Em meio a tantos refrigerantes
as pessoas esqueceram o sabor da vida.
Não quero te convencer, mas veja,
se você estivesse aqui
e comigo bebesse o que eu bebo
saberia por que água é melhor que cerveja.

(Wanderley Navarro)

O Universo é um rio sem margens

 

O Universo é um rio sem margens,
as estrelas, um cardume de peixes,
eu sou um pescador faminto
lançando minhas redes
à procura de um sentido.

O Universo é um rio sem fim
e eu, perplexo e extasiado , sigo
no meu barco chamado Terra,
rumo ao desconhecido.

O Universo é um rio profundo
e de água é feito tudo o que existe,
mas por maior que seja
este oceano infindo
inda é menor que minha sede.

(Wanderley Navarro)

Não temo dizer adeus

Não temo dizer adeus
porque, mesmo se eu não voltar,
o reencontro pode ser noutro lugar.
A despedida é sempre provisória
e o nunca-mais não tem sentido.
O último abraço, pode crer,
será repetido infinitas vezes.
A última vez nunca é definitiva.
Mora em mim uma certeza
mais certa que a certeza da morte:
– O último adeus não existe!
Ainda vou te olhar nos olhos,
te pegar no colo e te chamar
de meu amado filho.

(Wanderley Navarro)

O breu da noite, às vezes

O breu da noite, às vezes,
engole o mundo e nossos olhos
perdem o rumo.
A esperança nos abandona
e nos foge da boca o gosto de viver.
As palavras ficam vazias
e perdem a rima.
Às vezes, a noite vence
e o escuro substitui as cores.
Cegos, não vemos sentido.
O breu da noite apaga
as respostas de nossas perguntas.
Somos apenas fetos
ainda de olhos fechados,
grãos plantados no escuro da Terra.
Mas enquanto a semente dormita,
no seu peito eclode e busca a luz
o invencível gérmen da Vida.

(Wanderley Navarro)

Não me canso de admirar

Não me canso de admirar
aquele frondoso eucalipto,
solitário, no meio do pasto.
O vento sopra,
suas folhas se alvoroçam,
seus grossos galhos dançam
e se jogam de um lado para o outro.
O tronco balança, mas não sai do prumo.
O ponteiro, desde pequeno,
só olha para o alto mais alto
e, apesar do vento que o empurra,
não se desvia nem perde o rumo
e sabe que crescer é para cima.
Pedi-lhe que me explicasse
quem lhe deu tamanha retidão
e lhe ensinou a ver, no ar, a direção…

Não me canso de contemplar
aquele frondoso eucalipto.
Ele e tantos outros iguais,
árvores dispersas ou juntas,
sabem de cor o caminho.
Eu, só eu, faço perguntas!

(Wanderley Navarro)

Não se exponha

Esconder-se

Não se exponha, me ensinaram,
não se mostre inteiro,
esconda seus poemas,
tranque a porta do quarto
para evitar problemas.
Não fique no tempo
que o vento te açoita
e a chuva te molha.
Use óculos escuros,
assim ninguém te lê os olhos.
Vista-se bem,
cubra a nudez do teu ser.
Mostre-se apenas a si mesmo.
Não se revele, me aconselharam,
abuse da maquiagem,
contente-se com as aparências.

Que faço eu agora?
Sou casa sem paredes,
o que sou, sou apenas dentro,
não tenho lado de fora.

(Wanderley Navarro)

MInha mangueira

Minha mangueira

Ganhei aquela muda de mangueira de um amigo. Ele a trouxe dentro de um vaso. Plantei-a no dia seguinte no pomar do sítio. Meu filho me ajudou. Escolhemos um lugar especial, fizemos um buraco e a cobrimos com terra boa, esterco bem curtido, limpamos o mato em volta. Ali estava, enfim, aquela pequena planta que, apesar de seu talinho fino, prometia ser uma grande árvore e produzir a doçura de muitos frutos.

Dei-lhe tempo e cuidados. Protegi-a contra a fome dos cabritos e outras pragas. Quase todos os dias, no final da tarde, eu a visitava. Ela crescia, crescia. Dois ou três anos depois, estava maior que eu com meus braços erguidos. Antes disso, porém, começaram as cobranças. “Ela ainda não deu frutas?…” “Já devia ter dado algumas…” “ Tem pé que já frutifica no primeiro ano…”

A minha mangueira continuava lá, verdinha, bonita. Na primavera soltava algumas flores que, no entanto, não vingavam. O tempo foi passando. E ela crescendo mais. Tornou-se uma bonita árvore que dava sombra para a família e galhos para os ninhos de passarinhos. Mas manga que é bom, nada…

Meu vizinho me visitou um dia e me aconselhou a simplesmente cortá-la. Mangueira que não dá manga merece mesmo é machado, falou ele. Fui contra. Aquela árvore era mais que uma mangueira. Era minha. O vizinho não sabia  o que era isso…Vamos esperar o próximo ano…quem sabe? Mandei fazer análise da terra outra vez. Apliquei o adubo recomendado pelo agrônomo. Corrigi e enriqueci o solo à sua volta, no rodado de sua saia.

No ano seguinte, tudo igual. A mangueira floresceu, porém as flores deram em nada. Mas eu ainda não desisti dela. Já era a maior árvore do pomar. Propus-me a lhe dar um tratamento especial. Todos os dias, exceto quando chovia, eu lhe dava bons litros de água. Alguém me falou que uns bons golpes de facão no tronco resolveria o problema, com certeza. Fiz isso com dor no coração, mas fiz.

No ano seguinte, a frondosa mangueira, apesar de tudo, ainda não respondeu. Produziu, sim, algumas manguinhas mirradas que apodreceram antes mesmo de amadurecer. Meu vizinho insistiu: “ Mangueira quando vem com defeito não tem jeito…aproveite sua lenha. Ao menos para isso deve servir…”

Aquela bendita árvore estava tomando meu tempo e ocupando um precioso espaço no pomar. Tomando o lugar de outras que eu bem poderia plantar. Quase concordei com meu vizinho. Mas perdoei minha mangueira mais uma vez. Dei-lhe nova chance. Mas no ano que vem, ameacei,se não houvesse frutos, eu a cortaria de vez. Afinal de contas, paciência tem limite. E, apesar do sentimento, a gente precisa agir com a razão. Era apenas uma árvore…

Nos dias seguintes, conversei com ela, igual minha mãe fazia com as roseiras dela. Abracei-a em silêncio, imitando uma amiga panteísta. Por que minha querida mangueira não me dava mangas? Não me lembro de um caso como este. Ao contrário, já vi tantas mangueiras com os galhos arcados até o chão pelo peso de tantas frutas. Mangueiras, à vezes, sem dono, abandonadas e esquecidas no meio do pasto ou dos caminhos…Mangueiras que dão frutas a todos, sem perguntar se mereciam ou não, se haviam cuidado delas ou não. Por que minha mangueira não frutificava?

O ano seguinte chegou. As mangas, não! Liguei a motosserra. Encostei-a no tronco daquela árvore…mas me lembrei que eu era mais velho que ela…e que frutos, eu, eu, havia dado à sociedade? Na minha empresa, fui firme e cortei funcionários improdutivos. Sempre cobrei dos outros bons resultados. Mas, a verdade é que comigo mesmo, eu sempre fui compassivo. Que tipo de mangueira era eu? Guardei a motosserra.

Os anos se passaram. Eu já nem conferia mais se a mangueira florescia ou não. Nem mais passava perto dela. Parece que, aos poucos, ela foi deixando de ser minha.Era uma árvore grande lá no pomar, mas, na minha vida, ia diminuindo e ocupando menos espaço dentro de mim.Era essa indiferença que eu queria mostrar àquela mangueira, mas na verdade, resistia em mim, a esperança de um milagre…

Um belo dia, chegando de uma demorada viagem, me deparo com aquela mangueira carregadinha de mangas! Imaginem… Frutas sadias, abundantes e madurinhas…Em nenhum lugar do mundo eu havia visto um espetáculo assim tão belo…Fiz questão de chupar muitas mangas, lambuzar a boca e a cara, tirei o atraso de todos este anos passados. Depois dei um demorado abraço na minha mangueira, acariciei sua folhas, beijei seus galhos. Valeu a pena esperar, esperar e perdoar mais do que devia. Sem isso, eu jamais saberia o quanto minhas mangas eram doces…

  (Wanderley Navarro)

Nem vi a noite chegar

Nem vi a noite chegar.
Estava ali na rede
embalando meus pensamentos
e, de repente, vejo o escuro
feito cortina fechando a janela.
Há bem pouco inda era dia
e num piscar de olhos a luz se foi.
Distraído, absorto…
Esse tempo em que estive longe
existiu mesmo?
Ou foi a vida?
Nem vi a noite chegar.
O sol que ainda há pouco
tomava conta do mundo
se esmigalhou, se espalhou
e seus tantos pedacinhos,
viraram as estrelas no céu.

(Wanderley Navarro)

Não se pode precisar

Não se pode precisar
onde termina o claro
e começa o escuro.
Como traçar uma linha
separando o presente do futuro?
Não existe fronteira
entre o dia que acaba

e a noite que chega.
Onde termina meu corpo
e começa o mundo?
Não existe limite entre mim e você.
Nada pode dividir o ser.

(Wanderley Navarro)

Hoje é feriado em mim

Hoje é feriado em mim.
O coração badala
feito o sino do povoado.
O sangue me corre nas veias
como as crianças na rua.
A esperança me embala
e sinto minha alma
à flor da pele.

Hoje é feriado em mim,
dia santo de guarda.
O sol nasce comigo e sua luz
enche meus olhos de mundo.
É este meu primeiro dia.
Hoje começa a vida!

(Wanderley Navarro)

A noite ensaia uma tempestade

A noite ensaia uma tempestade
e da minha janela assisto
o mundo inteiro apagado.
Os relâmpagos disparados
são dias inesperados
que duram nem um segundo.
Os raios a gente só vê
depois que seu clarão se apaga.
Duram o mesmo tempo da vida,
talvez um pouco mais.

Fecho os olhos para ouvir melhor
o vento inquieto soprar forte
e alvoroçar a copa das árvores.
Os trovões são tambores que não se calam.

Escuto com prazer a música da chuva
açoitando a vidrança
e as goteiras estalando nas calçadas.
A tempestade é uma sinfonia
e nem a Pastoral de Beethoven
é bonita assim.

Ouço a tempestade,
ela não me assusta nem me abala.
Se o dilúvio me arrastar
e me afogar o corpo
minha alma sabe nadar.
Dizem que o tempo assim
provoca morte e desgraças tantas
em outras partes do mundo,
mas, aqui no meu lugar,
a tempestade só canta.

Amo as tempestades.
Sei que, acima dos trovões e raios
e das nuvens negras,
as estrelas brilham sempre!

(Wanderley Navarro)

No mês de setembro

No mês de setembro
plantei meu poema no jardim,
cobri com terra suas palavras
e lhes dei de beber água da mina.
Na terra plantei versos
e com eles eu fui junto,
enterrei minha poesia
e com ela o meu ser.

Então,
no meio da madrugada,

meu poema rompeu o chão
e, das palavras, silêncios brotaram.
Silêncios são flores
que não precisam de som
mas que falam.

(Wanderley Navarro)

Neste verão não reclamarei do sol


Neste verão não reclamarei do sol.
Nem uma vez…Fiz este propósito.
Não me queixarei do calor ardente,
nem do suor que me lava o rosto.
Ninguém ao meu redor me ouvirá
desejar outra estação diferente.

O calor vai me lembrar sempre
que mais perto de nós está o sol
e, com ele, tudo fica melhor…
O verde cresce da noite para o dia
e o mundo se cobre de vida e poesia.

Por isso, nesta estação quente
não reclamarei do calor que fizer,
ao contrário, beberei com os olhos
toda a luz que o sol me der.

(Wanderley Navarro)

Naquele dia sem nome

Naquele dia sem nome
enterrei a esperança
e sua boca lacraram
com espessa lápide fria.
Naquele dia sem nome
morreu de vez a poesia.

Mas o sol continuou nascendo,
inventando novos dias,
as noites me pegam no colo
e as estrelas me visitam sempre
e perseveram no brilho.

Naquele dia sem nome
enterrei a esperança,
mas a vida teimosa e provocante
sempre me aponta adiante
a possibilidade do impossível.

(Wanderley Navarro)

Gosto da noite nua

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Gosto da noite nua,
noite escura, sozinha,
abandonada pela luz da lua,
sem lanternas ou vagalumes,
ela mesma, inteirinha…
Quanto mais escura a noite
mais o universo se estende
e, nele, meus olhos
mais longe caminham.

Gosto da noite escura,
a terra inteira apagada,
sem lâmpadas acesas
nem dentro nem fora de casa,
sem o clarão distante da cidade,
sem fogo aceso nem brasa,
sem fósforo riscado ou chama de gás.
Gosto da noite assim escura:
nela as estrelas brilham mais.

(Wanderley Navarro)

O impossível é mesmo implacável

O impossível é mesmo implacável,
traça traços indeléveis,
fixa limites nos desejos,
impõe bordas na estrada
e destinos nos caminhos.

O impossível é mesmo tirano,
ignora o nosso texto, nossos planos,
escreve, ele, a novela da vida.
Levanta muros intransponíveis,
faz o não existir.

Mas é por causa dele
que nós humanos, inconformados,
inventamos sonhar.

(Wanderley Navarro)

20/10 sempre será hoje…

A menor parte da matéria,
a mais vizinha do nada,
é deveras pequena,
bem menor que nosso corpo.

O corpo humano é pequeno,
cada um de nós
não passa de uma célula invisível
no imenso corpo de Mundo.

Porém o mundo também é pequeno,
apenas um átomo no espaço
do infinito Universo.

Mas o universo também é pequeno
se comparado com a vontade
que hoje tenho de te abraçar.

(Wanderley Navarro)

No início do mundo

No início do mundo
havia um único dia
e seu nome era domingo.
Não havia nem semana
nem horas numeradas,
o tempo inteiro só era feriado.
Entre um dia e outro
havia a noite, havia sim,
mas a noite só servia
pra mostrar o brilho das estrelas
e o universo sem fim.
O tempo era um dia só,
não era divido em partes
nem as partes eram contadas.
O sol nascia e tornava a nascer,
não para separar os dias,
mas lembrar que existir
é um contínuo renascer.
No início do mundo era assim,
mas, não sei quem, inventou
as datas e o calendário,
dividiu tudo em segundos,
pôs nomes diferentes nos dias,
fatiou o tempo e foi roubando
pedaços do domingo.
Mas você que agora sabe
não se deixe enganar:
se existe um grande amor
todo o dia é sempre igual
e a vida é um domingo.

(Wanderley Navarro)

Aqui, neste caminho

Aqui, neste caminho,
enquanto vago solto,
vejo nascer o sol.
A luz chega de mansinho
e toma conta do mundo.
A claridade me invade os olhos
e o dia nasce dentro de mim.
Comigo respira a brisa.
O canto dos passarinhos
põe música nos meus pensamentos.
No meu peito palpita
o agora da vida.
Penso em quem amo
e, por um instante,
eu sei o que é paz.

(Wanderley Navarro)

Sei quantas estrelas há no céu.

Sei quantas estrelas há no céu.
E não foi difícil contá-las.
Calculo seu número certo e exato,
num instante, na primeira olhada.
Na verdade, há uma única estrela.
Ilude-se quem acha que são incontáveis,
espalhadas feito partículas de pó.
Ao contrário do que se pensa,
não são tantas quantas parecem:
são todas uma só.
Ninguém sabe, mas a vida me revela,
que pelo Universo afora, se espalham
bilhões e bilhões de espelhos…
Há somente uma estrela de verdade,
as demais são apenas reflexos dela.

(Wanderley Navarro)

Estou aqui, longe de mim

Estou aqui, longe de mim,
nesta ilha chamada Terra
que é apenas um pingo azul
nesta página do universo.
Sou nada neste mundo,
de tão nada nem existo,
nem sou visto a olho nu.
E no entanto, o sentimento,
o poema que sou por dentro,
é muito maior que o firmamento,
é muito maior que tudo.
 
               (Wan♪erley Navarro)

Sou uma casa vazia

Sou uma casa vazia,
  vazia e aberta,
    sentada no morro,
      no morro mais alto
        desta ilha deserta.
          O vento do mar
            me varre e atravessa, 
              me chama, assovia,
               mas nada me encontra,
                 ninguém mora em mim,
                   minha alma partiu,
                     estou vago por dentro.

(Wanderley Navarro)

Minha casa

Minha casa ali sentada,
bem no colo da colina,
se contempla ali no lago
e reflete o tempo todo
o que a vida lhe ensina.

Minha casa ali sentada
no barranco da colina
se olha no espelho dágua
sem saber se é a de baixo
ou se é a de cima.

(Wanderley Navarro)

Na boca da noite, na mata,

 

Na boca da noite, na mata,
escuto a orquestra de grilos,
ouço o cintilar das estrelas
e o som sutil de seus brilhos.
Acima de tudo, ouço o silêncio
e a luz do sol banhando a lua.
O caminho me toma pelas mãos
e me dirige o passo-a-passo dos pés.
O vento suave me sopra.
A noite é uma coberta escura
que me envolve e me abraça.
A esperança está viva ainda.
Escuto o coração do mundo
e a vida pulsa dentro de mim.
Boa noite, Noite,
seja bem-vinda!

(Wanderley Navarro)

Nessas noites de inverno

Nessas noites de inverno,
no silêncio da madrugada,
afasto a cortina da janela
e assisto o espetáculo do céu.
Mas o universo  está nu
e os corpos dos astros,
expostos ao vento gelado.
O brilho das estrelas
treme de frio.

Abro a porta dos meus olhos
e deixo entrar neles
o firmamento inteiro.
E dentro de mim protejo
e agasalho as estrelas.

(Wanderley Navarro)

Ganhei um pé de azaleia

 

Ganhei um pé de azaleia,
mas não o plantei no chão.
Escolhi um bonito vaso
e ali, com terra boa,
cultivei a minha flor.
E depois, na primavera,
já bem pega e florida,
coloquei-a no parapeito
da minha janela aberta
de maneira tal que
olhando o mundo lá fora
eu visse primeiro ela.
Assim, tudo mudou de cor.
Olho a vida ao meu redor
do ponto de vista da minha flor.

(Wanderley Navarro)

Meus pés descalços

 

Meus pés descalços
se cravam no chão da estrada
e, feito estacas bem fincadas,
tanto se agarram que se tornam
membros do caminho.

Mas a cabeça vive nas nuvens
e meus olhos procuram janelas
nas paredes azuis do firmamento.
O resto de mim vive solto
e escreve poemas no vento.

(Wanderley Navarro)

 

Neste céu polvilhado de astros

Neste céu polvilhado de astros,
o que faz uma estrela ser diferente,
e entre as tantas outras se distinguir,
ser única e singular?

Olho a noite e, uma vez mais,
volto a me perguntar:
o que torna uma estrela diferente
entre tantas outras iguais?
Será a peculiaridade de seu brilho,
ou as cores de seu cintilar?
Será sua grandeza, suas dimensões,
ou o quanto dista das nossas mãos?
A diferença estará nos nossos olhos
e dentro de cada um de nós?
Ou se explica, por acaso, no acaso
de um encontro não marcado?
Quando olhamos para o alto,
por que uma estrela salta
à frente de nossa vista?

Na vida, as perguntas são feitas
só depois que as respostas chegam,
por isso, pouco importam.
Ninguém precisa saber explicar…
Basta sentir que no céu da vida
há uma estrela única e singular.

(Wanderley Navarro)

 

Se você se sentasse aqui

Se você se sentasse aqui
e comigo respirasse
essa brisa do fim da tarde,
assistisse o sol sumindo,
sentiria no céu da boca
o quanto o entardecer é doce.

Se a vida quiser me atender,
dou logo a dica:
quero partir com o sol,
deixar atrás de mim, feito rastro,
uma noite semeada de estrelas
e, mundo afora, seguir
provocando auroras
e morrer mesmo
só nos olhos de quem fica.

(O sol já nasceu tantas vezes)

O sol já nasceu tantas vezes

Se não houver frutos

“Se não houver frutos,
valeu a beleza das flores ?
Se não houver flores,
valeu a sombra das folhas ?
Se não houver folhas,
valeu a intenção da semente” ?
Se não houver amanhã,
valeu o sonho de hoje ?
Se não houver reencontro,
não terá sentido a vida!

Saudade…

Saudade é uma sede,
e, por mais que a gente faça,
saudade é uma sede que não passa.
Ora bebemos palavras,
ora nos afogamos no silêncio.
Mergulhamos os olhos nas estrelas,
mas a luz só nos faz mais sedentos.
A realidade não basta
e sonhar a sede não mata.
As nuvens da primavera
no meu copo não cabem.
A sede que sentimos por dentro
é sempre maior que a boca.
A chuva que, às vezes, molha
o vestido verde da Terra
não sacia seu ventre.
Os oceanos engolem os rios,
mas nunca se enchem.
O vulcão aceso bebe o mar,
porém, por dentro, não se apaga.
Saudade é sempre sede de alguém,
de alguém que nos falta,
mas nunca nos sai do lado.
Saudade é uma sede sem água.

(Wanderley Navarro 15/4/12)

Estou a caminho

Estou a caminho.
A montanha me espera.
O cume petulante me desafia.
Não temo a fadiga nem o cansaço
pois para eles venho preparado.
Não conheço a trilha,
mas a caminhada me ensina.
Não me preocupam as fendas e os abismos
que me exigem saltos.
O risco de despencar no desfiladeiro
não me aflige nem segura minha vontade.
Se necessário, abraço-me à pedra nua,
agarro-me aos mínimos detalhes.
Os espinhos machucam, mas passam.
O que temo de verdade
é chegar ao topo e de lá ver nada,
sentir que foi em vão minha escalada.
Não terei forças para voltar
se o cume não me mostrar,
no alto mais alto, o inesperado.
Estou a caminho.
A montanha me desafia.
Meu fôlego é a esperança.
O impossível é minha energia.

(Wanderley Navarro)

Sei que ao partir

Sei que ao partir
deixarei uma dívida impagável.
Fui mais amado que amei.
Tantos me olharam
e eu quase só no espelho mirei.
Aos que me deram a mão, eu pouco ajudei.
A vida me deu tanto
e eu, distraído, tão pouco agradeci.
Poucas vezes voltei ao lugar de onde saí
para agradecer quem me fez ousar e partir.
As estrelas brilharam sempre,
durante noites inteiras
e meus olhos, apressados,
não se demoraram nelas quase nada.
As flores do caminho, abertas , de plantão,
e eu passei por elas sem notá-las.
Tantas vezes fui perdoado e, de fazer o mesmo,
tantas vezes deixei de lado.
Na hora de fazer as contas,
sei que fiquei devendo à humanidade
uma dívida impagável.
Os que me cercavam, meus erros sempre relevavam.
Mas eu sempre fui crítico, implacável.
Mais fui compreendido do que compreendi.
Cansei-me fácil dos que nunca se cansaram de mim.
O dia-a-dia me ensinou o tempo todo,
e eu, aluno medíocre, bem pouco aprendi.
A terra me alimentou a vida inteira,
mas não me lembro de ter o chão beijado.
Fui lembrado por tantos e de tantos me esqueci.
Retribui nada perto do que ganhei.
Por isso, sei que ao partir,
deixo impagável
minha dívida com a humanidade.
Mas também sei que a Vida
vai me perdoar mais uma vez.

(Wanderley Navarro)

O tempo é uma mentira


O tempo é uma mentira
muito bem contada.
Fala que os homens finam
e que a vida passa,
mas não passa nada.
A história de nossos dias
não se perde nem se apaga,
apenas de nós se esconde,
fica em nós guardada.

Há tempos comecei a morrer

Há  tempos comecei a morrer.
Quem me conhece de longe,
me olhando agora, bem pode dizer.
A morte não começa
só da metade pra frente,
mas desde quando sou gente.
Não se acaba de repente,
mas devagar, bem de mansinho.
O dia-a-dia é uma anestesia
e quando a gente acorda
já passou a nossa vez.
Desde sempre, comecei a morrer.
Por maior que seja o suicida
ninguém se mata numa só data
nem termina só no dia da partida.
Já no início do início,
para todos, começa o fim.
Faz tempo que essa morte,
constante e contínua,
se chama Vida.

Estamos flutuando

Estamos flutuando.
A Terra boia no vazio
e gira solta pelo espaço afora.
A rocha em que me agarro agora
em nada se apoia.
O solo firme é só uma ilusão,
não existe tábua de salvação.
A realidade mesmo
é que a realidade não existe.
A verdade deve ser dita:
o Universo não tem chão.
Ninguém consegue
fincar alicerces no infinito.
Quem sabe me dizer
onde se pode pisar firme com certeza?
Estamos caindo a cada segundo.
Não sei se para cima ou para o fundo.
Nem sei onde estamos.
Estou certo apenas disto:
o único lugar seguro neste mundo
é o abraço de quem amamos.

Meu silêncio é feito

Meu silêncio é feito
de espera e procura,
de minutos que não acabam,
de palavras que não falam…
Meu silêncio é feito
de noites acordadas,
de arrebóis e madrugadas.

Há dentro de mim
um deserto imenso
que não termina
e quanto mais penso
mais ele cresce
e parece sem fim.
Não me falta amor,
nem saúde, nem luz,
não me falta nada.
E no entanto, o vazio
no meu entorno expande.
Não me faltam motivos
para cantar e rir.
Mas a sombra da noite
chega e então me invade,
vem essa tristeza funda,
só Deus sabe de onde.

(Wanderley Navarr0)

Maior que a vida

A fome do homem vive mais que ele.
As emoções  mais fortes
duram bem mais que os ossos
e não terminam com a morte.
Nossos desejos não se desfazem,
não se acabam como a nossa carne.
Nossos amores, a terra não come,
não viram cinzas nem o fogo consome.
Os sentimentos têm alma própria
e seguem vivendo depois de nós.
Por isso, jamais será tarde.
O tempo passa e acaba a lida,
mas a paixão vai muito além,
a paixão é maior que a vida.

Bom dia, dia!

No meio da noite, atento

No meio da noite, atento,
escuto o sussurro do vento
sibilando por entre os fios
dos ciprestes macios.

O silêncio, às vezes, dói
e a dor que não fala,
aumenta sempre e se torna
a maior parte de nós.

O silêncio é uma palavra inteira
sem consoantes nem vogais
que às vezes fala menos,
outras vezes fala mais.

O silêncio é sempre
a ausência de um bem,
a ausência de nós mesmos
dentro de nós.

(Wanderley Navarro)*

Não quero para mim

Não quero para mim
o Cruzeiro do Sul
nem me importa ser dono
de qualquer outra constelação.
É muito pouco…
Não quero a Via Láctea
com seu o bilhão de astros
nem outras tantas galáxias
semeadas pelo universo.
Preciso mais…
Quero, sim, aquela estrela,
inteira, todinha,
não precisa que seja a maior,
basta que seja minha.

Aquela estrela, ali,

Aquela estrela, ali,
a que mais brilha,
não me canso de vê-la
e passar a noite com ela.
Aquela estrela,
a que mais cintila,
de presente, me pediu os olhos,
não só um, mas os dois.
Eu disse: ” Não e não”.
Ainda que fascinante sois,
preciso deles, de cada um,
para ver o que é meu”.
Mas aquela que mais brilha,
brilhando me repreendeu:
– Quem disse que você é seu?

(Wanderley Navarro)

Deixe-me enlouquecer em paz

Deixe-me enlouquecer em paz.
Solto o pensamento
e deixo que vá onde quiser.
Dentro de mim, ao menos,
estarei junto a meus pés
e meu caminho não terá bordas.
Não me peça juízo, nem bom senso,
nem me dite regras, me deixe só
na aventura de ser eu mesmo.
Não coloque portas no mundo
nem chaves nos meus sentimentos.
Quero morar fora das paredes.
Aqui no meu canto,
vivo em silêncio e insano
a aventura de ser humano.
Pensar e seguir até o fim
exige coragem mais do que tenho,
ainda assim, me deixe voar.
Deixe-me enlouquecer
que ao menos assim
não me assisto morrer.
A liberdade é para poucos,
isso na vida aprendi,
e só os loucos são livres
de todos, inclusive de si.

(Wanderley Navarro)

No deserto semeio passos

No deserto semeio passos
e espero que os rastros que faço
se tornem caminhos.
Caminhos são pontes
entre mim e o horizonte.

Não raro, quase desisto
e abandono meu sonho,
o sonho insano de chegar.
Se o deserto não tem fim,
por que não me sentar
e, descansado, a morte esperar?

No entanto, sigo avante!
Pouco importa a razão, o juízo,
só o que posso e preciso
é semear passos e caminhar.

(Wanderley Navarro)

Recoste sua cabeça

Recoste sua cabeça no meu colo,
descanse, feche os olhos e durma
que, acordado, velarei seu sono.
Prometi ser seu anjo e te guardar,
não permitir que nenhum mal te aflija.
Não deixarei que o ruído te acorde,
nem deixarei que o vento frio
entre pela janela e te incomode.
Estarei aqui de olhos abertos
te olhando e te cobrindo com meu olhar.
Cuidarei das portas, serei vigia,
impedirei o ladrão de entrar,
não permitirei que os pesadelos
te roubem a paz.
Prometi ser seu amigo e te guardar.
Indicarei o caminho certo
para que não ande a esmo.
A tarefa mais difícil, no entanto,
a que mais me cansa e pesa,
é te defender de mim mesmo.

(Wanderley Navarro)